sábado, 23 de março de 2019

E a gente é só passageiro prestes a partir


A nossa vida muda irreversivelmente a cada instante, por mais que quase sempre pareça que tudo está e continuará sempre igual. A verdade é que, sem percebermos, pessoas vão e vem o tempo todo. Cada vez que alguém deixa de fazer parte do meu dia a dia, eu sinto uma dor no peito proporcional à alegria que aquela pessoa, mesmo inconsciente disso, me trazia.

Ultimamente, tenho sentido mais e mais essa dor. E não acho que é porque muitas pessoas estão deixando de fazer parte da minha vida. Acho, sim, que é porque nos últimos anos me abri para realmente apreciar cada um que cruza meu caminho. Mesmo sem que essas pessoas saibam, mesmo sem que seja recíproco. 

Quando meu primeiro namorado terminou nosso namoro e fiquei arrasada, meu pai me disse uma coisa que nunca esqueci - e que repeti incontáveis vezes para muita gente e para mim mesma. Não lembro exatamente como ele disse, mas a mensagem era essa:

- Está sofrendo com o fim desse relacionamento? Que bom. Sinal de que você se envolveu como tinha que ser. 

Tenho notado que nos grupos de que faço parte, normalmente sou a mais animada - quando não a única animada. É obvio que é muito mais legal quando a empolgação é compartilhada, mas eu prefiro ser a única empolgada do que estar num lugar sem me empolgar com aquilo. 

Sinto meu coração partido a cada partida/mudança, mas penso que é melhor assim. Na verdade, só assim. 

E que o novo sempre me encontre aberta e animada.

sábado, 16 de março de 2019

"Não me deixa bravo."

Autorresponsabilidade foi um aprendizado que mudou minha vida. Ninguém é responsável por como me sinto. Eu sou a única pessoa capaz de me fazer sentir qualquer coisa. Aprender isso foi libertador e passei a me sentir muito melhor, pois comecei a escolher como me sentir em relação a tudo que acontece ao meu redor. Esse aprendizado foi uma virada de chave na minha vida, eu achava.

Davi brincando, Bento chegou perto e tocou os brinquedos do Davi. Davi calmamente demandou:

- Bento, não me deixa bravo.

"Não me deixa bravo." - A frase ainda ecoava na minha cabeca, quando Bento veio em minha direção confirmar o que eu suspeitava:

- Mamãe, Davi está me deixando bravo.

É, autorresponsabilidade é tudo, mas se meus dois filhos se expressam dessa forma é sinal de que não ando praticando muito bem, não. Essa frase certamente veio de mim e eles acreditam, portanto, que se eu fico brava a culpa é deles e não minha. Não é. Eu sei racionalmente, mas não falo com eles como se soubesse.




quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

"Carolina é uma menina tão difícil de esquecer...

...andar bonito e um brilho no olhar
Tem um jeito adolescente que me faz enlouquecer
E um molejo que eu não vou te enganar"

Carol entrou na minha vida num domingo ensolarado pós-eleições pra presidente em 2004. Já chegou fazendo festa, aliás, acho que tinha mesmo que nascer em época de carnaval. Maria Carolina, Carol, é como o carnaval: acolhedora, democrática, avassaladora, linda, colorida e intensa.

Foi dia 25, eu sei bem, mas sei também que nunca é tarde para comemorar o amor, a amizade e a alegria.

Parceira de tantas aventuras que já perdi a conta. Companheira na farra e na dor. É irmã. Irmã-mãe, eu diria. Chama atenção quando acha que tem que chamar, mas respeita nossas escolhas. É amor incondicional isso, né?! Ela pratica a aceitação completa do outro, sem exigir que ele seja diferente do que é. Isso, minha gente, por si só, já a coloca num patamar de evolução acima de quase todos nós.

Estar perto da Carol é tão agradável, mas tão agradável, que ela naturalmente se tornou parte de todas as minhas turmas. A turma do prédio, da faculdade, do basquete, do samba, de Goiânia, do parque... sabem quem, além de mim, pertence a todas elas?! A Carol.

Amiga linda, obrigada por tantas aventuras, por tanto companheirismo! Obrigada por tanta coisa boa que trouxe/traz pra minha vida, por fazer da sua família - e que família maravilhosa!, a minha. Que você continue espontânea e generosa! Que continue sendo o amor e aceitação de que o mundo tanto precisa. Você é necessária e eu sou muito grata pela nossa jornada juntas, pra sempre.

Não há distância, não há tempo que diminua meu amor por você e pelos seus! Feliz a Liz e todos que te rodeiam. Vida longa e iluminada, minha irmã.

Te amo!

Sobre consentimento

"Ó Janaína quando estou feliz eu choro
Ó Janaína deixa eu dormir no seu colo"

Ciranda pra Janaína (Kiko Dinucci) tocava baixinho enquanto eu preparava o café da manhã. Davi, que me acompanhava, comenta:

- Se ela não querer (sic), ele tem achar outro lugar pra dormir.

- O quê, filho? - perguntei sem entender do que ele falava.

- A Janaína. Se ela não querer (sic), ele pode dormir na cama, né?!

Davi, 5 anos, sabendo mais sobre consentimento do que muito marmanjo aí.


https://www.youtube.com/watch?v=kcC25Zc9MO0




terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

"Não se admire se um dia...

...um beija-flor invadir
a porta da sua casa
te der um beijo e partir.
Fui eu que mandei o beijo
que é pra matar meu desejo
Faz tempo que não te vejo
Ai que saudade d'ocê!"

Eu cantava e ela performava coreografia num show improvisado para minha família. Tinhamos, o quê?!, 13, 15 anos?! Não lembro. Lembro que já éramos consideradas "velhas" pra esse tipo de coisa. Mas a graça estava exatamente aí: na inocência tardia. Enquanto todo mundo se preocupava em parecer maduro, a gente se divertia com a nossa infantilidade aparente. Eu e ela, a Gabi. Gabi Tetê, Gabriela Tereza Domingues Perez Andraus. Gabi Di Caprio. Eu, Lia Reeves.

Lembro-me como se fosse hoje o dia em que ela saiu de Goiânia pra morar em El Salvador. Chorei feito a adolescente de coração partido que era. Minha irmã de alma, minha irmã gêmea partia para longe. Aquela que topava tudo sempre. A minha companheira de fazer arte e bolo - o de laranja dela era sempre o mais gostoso. A responsável pela minha primeira - e talvez única? - bronca na escola (Colégio Marista, 7 série, acho).

Gabi foi morar longe, mas continuamos a nos falar frequentemente por cartas - de papel. Depois veio o meio digital de comunicação, mas nunca fomos boas nisso, né não, Gabi?! Já ficamos anos sem nos falar, mas nossas almas nunca se afastaram. Cada vez que nos falamos -poucas vezes - é como se o tempo não tivesse passado. E acho que amizade verdadeira é assim. Apesar da idade avançando (n-n-new generation), dos filhos crescendo, da vida se tornando cada vez mais real, a gente volta sempre àquele lugar onde moram nossas crianças.

Sei que estou muito atrasada (queria ter te mandado uma mensagem de aniversário), mas sei também que não importa. Quero te dizer, Gabi, que carrego muito de você em mim. Até hoje sei sorrir do seu jeito, fazer a sua cara e sentir como me sentia quando passávamos dias e dias grudadas. Você é uma alminha tão boa!

Obrigada por existir, por fazer parte da minha família e da minha vida. Obrigada por me aceitar por inteiro e não deixar minha ausência afetar nossa amizade. Obrigada por me causar dor na barriga de tanto rir. Te amo, ou!

"Horizonte azul, vermelho
Luzes a brilhar..."

domingo, 27 de janeiro de 2019

Cocriando a realidade (ou lições do Prem Bento)



Davi e Bento estão numa fase competitiva. Tudo se torna uma disputa pra ver quem faz/chega primeiro. Eu, confesso, algumas vezes uso isso para conseguir o que quero mais facilmente, tipo:

- Quem guardará mais brinquedos hoje?
- Hora do banho, quem chegará primeiro ao banheiro?
- Quem será o primeiro a colocar o pijama?

Ao que eles repondem rapidamente e juntos:

- EU! - e começam a fazer o que devem. Normalmente uso esse incentivo depois de já ter pedido uma vez sem sucesso.

Nas outras vezes, porém, essa competição só resulta em brigas e choradeiras, porque, óbvio, o perdedor sempre se ressente em alto e bom som. 

Bento, porém, acabou de me dar uma lição de vida, que quero compartilhar. 

Fui colocar o saco de lixo na lixeira que fica em uma porta do outro lado do longo corredor do andar onde moro. Da nossa porta até a lixeira dá uns - o quê? - 100 metros rasos. Saindo na porta, Davi já adiantou:

- Bento, eu vou ganhar, tá?! Você vai perder.

- Por quê? 

- Porque você precisa perder. - Davi esclarece.

- Não, eu não preciso. Eu vou ganhar.

Abro a porta e começam a correr, Davi na frente gritando:

- Eu to ganhando.

Bento, atrás, comemora:

- Eu to ganhando! Eu to ganhando! 

Davi, puto, ainda tenta acabar com a festa dele:

- Não, você ta perdendo. Você perdeu! Você perdeu!

Mas de nada adianta. Bento está em êxtase comemorando sua vitória. Felicidade inabalável.



sexta-feira, 20 de abril de 2018

A novela da minha vida

Davi começa a cantar baixinho, voz suave:

- Bento cocô, Bento cocô...

Bento chora copiosamente falando:

- My não cocô. Não! My não cocô.

Eu interfiro:

- Não, filho, vc não é cocô. Davi, PARA, filho.

Davi para.

Bento ainda com olhos cheios de lágrimas, entoa baixinho com voz suave:

- Davi cocô, Davi cocô...

Davi chora copiosamente:

- Eu não sou cocô. Não! Eu não sou cocô.

Interfiro.

E assim sucessivamente.